POESIA EM LINHA RETA:
últimas impressões sobre a
obra de Manoel de Barros
Renato Suttana*
A publicação do último livro de Manoel de Barros –
sob o título de Memórias inventadas: a infância, cujas folhas aparecem
soltas dentro de uma caixa – oferece o pretexto para um reencontro com sua
poesia, principalmente aquela das quatro últimas décadas, que concentra, a
nosso ver, o melhor de sua produção. E nos oferece, sobretudo, a oportunidade
de revisitar esse poeta que soube trazer para a poesia brasileira, com
discrição e brilho consideráveis, certas aquisições da vanguarda européia do
início do século XX, que outros tentaram com estardalhaço, em experiências que
hoje nos parecem destinadas aos museus. Com efeito, a poesia de Manoel de
Barros permanece viva, fiel aos seus pontos de referência, mas num
sentido que talvez já não satisfaça um leitor que aprendeu, com o próprio
poeta, a admirar o alto padrão de realização e de originalidade a que sua obra
nos acostumou. Poesia de “imagens”, mais do que de “mensagens”, que converteu o
desimportante, o inútil e o ínfimo num de seus temas de predileção, pensar as
suas relações com a vanguarda nos ajuda a compreender não só o sentido de seus
últimos livros como também o sentido dessa trajetória que, sem dúvida, se manifesta
como uma das mais relevantes da poesia brasileira da atualidade.
Já em seu “Manifesto do surrealismo” de 1924, André
Breton mencionava a seguinte teoria da imagem poética, formulada por Pierre
Reverdy, para corrigi-la em seguida, nos termos de sua própria argumentação, e
de certo modo contradizê-la, propondo como adendo uma noção que faria história
na tradição das vanguardas:
A imagem é uma criação pura do espírito.
Ela não pode nascer de uma comparação mas da
aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas.
Quanto mais distantes e
justas forem as relações das duas realidades aproximadas, tanto mais forte será
a imagem – mais terá ela de capacidade ou poder emotivo e de realidade
poética... (REVERDY apud BRETON, 1987, p. 188)
Pode-se dizer que Reverdy nada mais fez do que
reescrever, numa linguagem que não se demora em justificativas, a teoria da
metáfora de Aristóteles. Ao referir-se ao fato de que a imagem aproxima
“realidades mais ou menos afastadas”, Reverdy repete certo pensamento de Aristóteles
que supunha ser a metáfora nada mais que um modo especial de dizer, marcado
pelos mecanismos da analogia, os quais, ao mesmo tempo em que o fundam, lhe
concedem legitimidade cognitiva. No entanto Breton não se detém nesse aspecto.
Preocupado em teorizar sobre aquela “supra-realidade” de que fez bandeira o
Surrealismo – e que, no final das contas, não se compreende bem por que
deveremos considerar superior à simples realidade ou que vantagens
proporciona sobre esta última –, faz ao pensamento de Reverdy a seguinte
ressalva: “É falso, penso eu, pretender que ‘o espírito apreendeu as relações’
das duas realidades presentes. Para começar, ele nada apreendeu
conscientemente” (BRETON, 1987, p. 200). Para Breton, a pressuposição de que as
imagens sejam contrastantes depõe contra a noção de que possam ser selecionadas
e aproximadas pela consciência. Antes, “foi da aproximação, de certo modo
fortuita, dos dois termos, que jorrou uma luz especial, clarão de imagem,
ao qual nos mostramos infinitamente sensíveis” (p. 200, grifo do original).
Alguém poderia, evidentemente, ter lhe perguntado o que o levaria a supor, tal
como supõe a existência do surreal, a qualidade fortuita da imagem ou o seu
maior ou menor valor decorrente dela. Seja como for, sua teoria permite-lhe
enunciar uma noção que estaria destinada a fazer adeptos na crítica moderna,
especialmente no domínio das avaliações retrospectivas do Surrealismo, do qual
foi um dos fundadores: “O valor da imagem depende da beleza da centelha obtida;
ele é, por conseguinte, função da diferença de potencial entre os dois
condutores” (p. 200-201).
Com efeito, se a retificação de Breton parece
gratuita (para não falarmos de seu desinteresse em compreender o aspecto mais
“tradicional” do pensamento de Reverdy), a capacidade que demonstra de apontar
essa mesma gratuidade merece reconhecimento. E merece reconhecimento também o
fato de que, no final, a leitura do “Manifesto” produzirá no espírito do leitor
a mesma impressão de arbitrariedade, obscuridade, confusão e gratuidade que lhe
produzirão, por exemplo, os manifestos dadaístas. Mas a vantagem desses
manifestos sobre o de Breton – se pudermos falar assim – é que ali o jogo se
desmascara abertamente, sem os subterfúgios de uma pretensão teórica que os
edulcore. O dadaísmo demonstra, para além das justificativas de princípio, que
uma das categorias da arte moderna teria sido, desde o princípio, a
arbitrariedade de seus conteúdos. Imagens que se justapõem, que se chocam e que
se contradizem no momento mesmo em que são aproximadas se tornam fascinantes
não tanto pelo que revelam sobre uma realidade mais “profunda” ou mais
essencial do que a realidade visível (ou que a denunciam como insuficiente para
satisfazer uma consciência ansiosa de autenticidade), mas pelo fato de que se agrupem
por acaso, para além de qualquer justificativa. E pode ser que muito das
teorias que, na arte moderna, se têm esforçado por explicá-la como um esforço
cada vez mais rigoroso de racionalização nada mais sejam do que provas de um
esforço também extremado de reduzir o grau de sua arbitrariedade – não
importando o que digam em contrário os seus defensores. Gratuita desde que se
enamorou do novo como categoria mais alta, a arte não pode senão reconhecer e
celebrar essa gratuidade, conforme o faz o dadaísmo; ou pode tentar explicá-la
como uma instância superior do espírito que se deve resguardar a qualquer custo
– como o faz o Surrealismo –, mesmo que o preço seja, neste caso, a confusão, a
obscuridade e, o que seria de se esperar, o paradoxo de um emudecimento
tagarela.
No plano das realizações práticas, o pressuposto de
que as imagens contrastam entre si, produzindo choques, parece estar na raiz de
alguns dos procedimentos mais salientes da arte moderna. Podemos identificá-lo
na prática das colagens, de que Picasso e Braque teriam sido precursores, ou no
jogo das formas “abstratas” e das cores vivas das telas de Mondrian e de
Kandinsky, mas também no esforço surrealista das imagens “alucinadas”,
desconcertantes, muitas vezes acompanhadas por títulos poéticos (como acontece
nos quadros de Dalí), bem como na prática dos ready-made de Duchamp, um
seu descendente direto. O gesto de aplicar pedaços de madeira, papel ou
materiais sintéticos à superfície do quadro, ao lado das áreas pintadas de modo
mais convencional, praticado com intenção de blague pelos dadaístas –
mas que hoje se revelou como sendo uma das bases da arte contemporânea (ao lado
da produção de “objetos” que nada mais são do que apropriações tardias dos ready-made
de Duchamp, transformados quase em lugares-comuns) – não teria obedecido a um
pressuposto diferente. A arte é contraste, deslocamento, estranheza, não só
porque o seu teor metafórico foi conduzido às últimas conseqüências, mas
porque, no afã de produzir choques cada vez mais contundentes, passou a se
confundir ela mesma com o choque produzido. Se é sutil a ironia que emana dos
objetos de Duchamp – fabricados, não raro, com intuito de sarcasmo, como na
ocasião em que enviou um mictório de louça ao Salão dos Independentes –, a arte
se tornou, freqüentemente, repositório de materiais, cuja presença na obra nem
sempre obedece às injunções do significado. Fascinada por uma presença material
que vai muito além da simples neutralidade com que os pigmentos a óleo
compareciam na tela até o advento da vanguarda, a modernidade parece dar relevo
ao objeto (o que talvez se tenha tornado claro para Duchamp, sem no entanto
levá-lo a uma atitude de contemplação), ao mesmo tempo em que o perde numa
penumbra de obscuridade.
Seria ilusório, todavia, como querem muitos, supor
que a arte se tornou mais sensível ao objeto ou que lhe deu uma conotação mais
radical. Ao contrário do que supôs Roland Barthes – que falou, em seu livro O
grau zero da escrita, de uma poesia moderna mais “objetiva”, mais colada à
coisa em si –, pode ser que nesse particular ainda preservemos a mesma
consciência do mundo exterior objetivo que sempre se teve desde que o homem
aprendeu a produzir instrumentos. Não há por que supor que, se hoje eles são
produzidos pela indústria numa escala vertiginosa, nós nos tenhamos tornado
mais conscientes deles por virtude da arte, como se produzi-los em grande
escala fosse, do ponto de vista da produção, essencialmente diferente do
cuidado artesanal com que, digamos, nossos ancestrais teriam esculpido seus
machados de pedra. Nossas relações com eles continuam sujeitas, conforme já se
suspeitava há muito, a certa necessidade de nos apossarmos do mundo exterior,
de o convertermos em “utilidade” e, com isso, de nos esquecermos, nem que por
um instante, de sua fundamental estranheza, abrindo para a consciência um nicho
no ser que, ao mesmo tempo, a coloca dentro dele e a afasta dele. Exilados num
mundo que a ciência descreve com minúcia e complexidade crescentes, as
respostas que obtemos às nossas perguntas fundamentais não se tornaram mais
satisfatórias, pois que, se nos explicam o como das coisas, não podem
nos dizer o porquê de sua existência, como se a rede de relações em que
a ciência as inscreve nada mais fizesse que acentuar a sua iniludível
gratuidade. Mas não olhamos para essa gratuidade – pelo menos não a olhamos o
tempo todo – com os olhos de quem a enxerga de frente. Assim, o esforço
dadaísta de levar para a arte o material bruto – industrializado ou não – não
parece responder às perguntas. Entretanto, se tem alguma virtude, é a de nos
falar dessa gratuidade, despertando em nós uma impressão de perturbadora
nostalgia cujo sentido permanece nebuloso até o fim.
As relações entre pintura e poesia ainda não estão
bem esclarecidas e talvez nunca venham a estar. Não obstante, é possível dizer
que a poesia de Manoel de Barros, conforme estamos habituados a compreendê-la,
teria surgido de uma contemplação profunda do empreendimento vanguardista
europeu das primeiras décadas do século XX. Com efeito, o conhecimento de
certos livros do poeta – principalmente Gramática expositiva do chão, de
1969, que inaugura um certo modo de fazer poesia com o qual ainda hoje
identificamos a sua obra – daria ao leitor a impressão, seja em que grau for,
de estar diante de uma tela dadaísta. O próprio livro desperta, às vezes, a
suspeita de que se trata de um esforço para transpor, em poesia, certas imagens
originadas de um arcabouço dadaísta qualquer. Nesse esforço, a colagem de
materiais produziria o efeito de uma estranheza que une um sentimento anárquico
da palavra a um certo humor que não recua diante do grotesco, do nonsense
nem do declarado absurdo. A prática ali lembraria – ousaremos dizer – a mesma
prática de reunir, numa única superfície, uma quantidade de objetos heterogêneos.
Tais objetos só manteriam entre si, como justificativa para estarem reunidos, o
fato de que foram ajuntados ao acaso num espaço de presença que sequer os
unifica ou os interliga:
2.
Descrição da tela pelo Dr.
Francisco Rodrigues de Miranda, amigo do preso.
o artista recolhe neste
quadro seus companheiros pobres do chão: a lata a corda a borra vestígios de
árvore, etc.
realiza uma colagem de
estopa arame tampinha de cerveja pedaços de jornal pedras e acrescenta
inscrições produzidas em muros – números truncados caretas pênis coxas (2) e 1
aranha febril
tudo muito manchado de
pobreza e miséria que se não engana é da cor encardida entre amarelo
e gosma (BARROS, 1992, p.
156)
Os efeitos de humor não deixam de ser fundamentais
nesse livro. As imagens são, como o teriam postulado Reverdy e Breton,
sobretudo contrastes, ajuntamentos de coisas cuja unidade não percebemos
claramente. Ora, se Reverdy propunha que as relações de contigüidade fossem
apuradas a um grau superior, a poesia desse livro aproxima-se mais da proposta
das confrontações arbitrárias de Breton, defendidas em seu manifesto:
(2) O CARACOL – Que é um caracol? um caracol é: / a
gente esmar / com os bolsos cheios de barbante, correntes de latão / maçanetas,
gramofones / etc. / Um caracol é a gente ser: / por intermédio de amar o
escorregadio / e dormir nas pedras. / É: / a gente conhecer o chão por
intermédio de ter visto uma lesma / na parede / e acompanhá-la um dia inteiro
arrastando / na pedra / seu rabinho úmido / e / mijado. (...) (BARROS, 1992, p.
165-167)
Por outro lado, o que esses poemas nos dão a ver é,
sempre, a mesma consciência da gratuidade com que as coisas se manifestam na
percepção. Ou, por outros termos, eles parecem querer evocar em nós uma
consciência profunda de que os limites da linguagem são os limites – gratuitos
– do ser, mas que nós não podemos saber onde se assentam esses limites. Uma vez
abertos os diques que forçariam a poesia a trilhar certos eixos de sentido e de
coerência, os próprios versos tendem a fluir com uma liberdade que é também uma
ansiedade, pois não sabemos se o que se diz é dizível ou se o dizer tem
qualquer controle sobre si mesmo: “Colear / sofre de borboleta / e prospera /
para árvore / Colear / prospera / para o homem” (p. 167). De que se trata
afinal? Essa pergunta é semelhante àquela que faríamos diante de uma tela
dadaísta ou dos manifestos de Tzara, cuja dimensão contestatória percebemos,
mas cujo horizonte de sentido nos escapa como areia por entre os dedos. Não é,
talvez, a mesma pergunta que faríamos diante de certas telas ditas
“surrealistas” de pintores como Ernst ou Dalí, que sempre nos deixam um
sentimento de conterem mensagens psicológicas ou psicanalíticas sutis, como se
tentassem expressar um conteúdo de verdade que o mundo das imagens ordinárias –
as coisas jogadas ao léu no espaço da percepção – não pudesse expressar. E
existe tal conteúdo de verdade? De certo modo, se a posse da verdade não é
prerrogativa dos modernos, podemos deduzir que esse conteúdo não é mais do que
um efeito da estranheza, proveniente do modo caprichoso como as imagens –
cuidadosamente confeccionadas – são oferecidas à contemplação.
Já a poesia de Manoel de Barros – pelo menos aquela
que se desenvolve a partir do livro de 1969 (mas o mesmo se aplicaria a boa
parte de seus escritos anteriores) – tende a ser uma poesia de sentido
precário, no que diz respeito à possibilidade de veicular “mensagens”
suscetíveis de interpretação ou de paráfrase. Diferentemente de outros poetas
(como João Cabral de Melo Neto), que optam por desenvolver seus poemas como se
fossem desdobramentos lineares de um postulado central, os poemas do poeta
sul-mato-grossense tendem a se coagular em torno de eixos formados ao capricho
de um humor fragmentado. Trata-se, até onde podemos pensar, de uma poesia feita
de “frases”, de estações de um não-sentido basilar que produzem no pensamento
um efeito próximo àquele produzido (e mais de uma pessoa já o teria notado)
pelos koan da poesia zen. Apoiando-se em bases tão escorregadias, ela no
entanto realiza verdadeiros prodígios de audácia, que são capazes de despertar
no leitor um misto de prazer irresponsável e genuíno, como aquele que nos vem
de certo humor histriônico praticado no cinema. E, todavia, mantém-se entre
limites seguros, escavando profundamente uma região do poético em que poucos
ousariam se aventurar:
A Máquina mói carne
excogita
atrai braços para a lavoura
não faz atrás da casa
usa artefatos de couro
cria pessoas à sua imagem e semelhança
e aceita encomendas de fora (BARROS, 1992, p.
172-173)
É também de supor que até para esse poeta “fazedor
de inutensílios” a freqüentação do obscuro, do sem-sentido ou do gratuito
poderia gerar ansiedades. Afastemos, certamente, qualquer pretensão de aplicar
rótulos à sua poesia. Pensaremos apenas que é possível que esse livro inaugural
tenha gerado um movimento de reflexão cujos indícios se patenteiam com bastante
clareza no livro seguinte. Dizemos “reflexão” no sentido de que mesmo a tela
dadaísta em que essas imagens são coladas tende a solicitar uma moldura qualquer
– moldura que se concretiza na forma do próprio pensamento do poeta acerca
daquilo que escreve. Trata-se de poemas genuinamente dadaístas? Provavelmente
não, mas não é difícil identificar neles, com uma intensidade que será por
assim dizer domada nos livros subseqüentes, um afloramento do gratuito que se
revela excessivo até para um poeta que dele teria feito o seu bordão. O livro
de 1974, intitulado Matéria de poesia, contém efetivamente um número
reduzido de páginas (apenas 18 na reunião Gramática expositiva do chão (poesia
quase toda), de 1990), e está dividido em três partes. A primeira delas se
abre com o que, até certo ponto, se poderia considerar como sendo uma
declaração de princípio, mas também como um direcionamento e uma espécie de
recorte da visada anárquica do livro anterior:
1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
Terreno de 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia
(...) (BARROS, 1992, p. 179)
A poesia das “pré-coisas”, que não diz, mas
que pretende incorporar o mundo nomeado, está pronta, portanto, para
percorrer o seu arco de maior abrangência e de maior relevância. Identificamos
esse arco como sendo aquele que vai do livro de 1969 até O guardador de
águas, de 1989, em que seus processos mais significativos e – por que não
dizer? – mais surpreendentes são exercitados. Se pudéssemos apontar uma
diferença entre Matéria de poesia e Gramática expositiva do chão
diríamos que, no livro seguinte, se foi tornando mais nítida para o poeta a
consciência de que a linguagem do poema não freqüenta as altas atmosferas do
classicismo, mas também de que essa voz que nele se manifesta – entregue ao
jogo promíscuo das coisas “que não levam a nada” (o que poderia ser lido como
uma indicação de que o sentido utilitário das coisas foi colocado em suspenso)
– será de agora em diante a voz do insignificante, de que tudo aquilo “que a
nossa / civilização rejeita, pisa e mija em cima / serve para poesia”. Essa
tomada de consciência dará uma certa unidade à poesia de agora em diante,
ajudando o poeta a estabelecer alguns paradigmas, a selecionar uma ambiência
semântica própria (que muitas vezes o levará a ser visto, de modo algo
simplificado, como um “poeta do pantanal”) e a resgatar a presença de figuras
emblemáticas (algumas já insinuadas em seus livros anteriores), cujo ponto de
maior ascendência é atingido em O guardador de águas com a presença de
Bernardo da Mata. Esta última figura, como um auto-retrato à maneira de
Arcimboldo, indica que a poesia, tomada em suas relações de promiscuidade com o
mundo – ela mesma intransitiva em mais de um momento – é não só a poesia da
escória dadaísta de Gramática expositiva do chão, mas também da natureza
entendida como uma força que não pode ser apropriada pela linguagem da
utilidade. Essa força se manifesta com o seu maior esplendor no afloramento de
uma vida pululante de formas, texturas, cheiros, sabores, que só por pretensão
o homem ocidental tentaria enquadrar em sistemas de descrição matemática, dos
quais a natureza parece fazer pouco: “Me representa que o mundo / é como bosta
de onça, tem de tudo / – cabelos de capivara / casca de tatu...” (BARROS, 1992,
p. 189)[1].
O gosto por certas frases sem sentido ou formadas a
partir de lugares-comuns ou frases feitas que, alinhados de maneira caótica,
tomam conotações humorísticas que podem levar o leitor às gargalhadas parece
mimetizar o gosto da natureza pelas formas e comportamentos caprichosos –
formas e comportamentos sobre os quais a ciência moderna se tem debatido, sem
poder esclarecê-los inteiramente: “Casebres em ruínas / muros / escalavrados...
/ E a lesma – na sua liberdade de ir nua / úmida!” (BARROS, 1992, p. 193). A
leitura desses livros de Manoel de Barros evocará no leitor a impressão de
reviver experiências ancestrais, muito plenas na infância, que tendem a se
empalidecer na idade adulta. Aqui, os jogos de palavras, o luxo de um dizer
anárquico que se ri do que diz e do modo como o diz lembram o gosto infantil de
pronunciar as palavras por elas mesmas, nem sempre orientado pela preocupação
do sentido ou da comunicação. Essa poesia, que havia começado como um gesto
vanguardista de colar imagens contrastantes, não é, no entanto, uma poesia
“infantil” ou uma poesia para crianças. Suas imagens mais profundas falam não
tanto de um desejo atávico de retornar às “raízes” – como se poderia descobrir
na poesia de extração romântica –, mas, ao contrário da experiência da blague
dadaísta, assume a apreensão do inútil e do gratuito como porta de entrada para
se experimentar o mundo como doação, isto é, como dádiva de si à
consciência, intermediado por uma linguagem cuja magia escapa a todo cálculo:
coisinhas: osso de borboleta pedras
com que as lavadeiras usam o rio
pessoa adaptada à fome e o mar
encostado em seus andrajos como um tordo!
o hino da borra escova
sem motor ACEITA-SE ENTULHO PARA O POEMA
ferrugem de sol nas crianças raízes
de escória na boca do poeta beira de rio
que é uma coisa muito passarinal! ruas
entortadas de vaga-lumes
traste de treze abas e seus favos empedrados
de madeira sujeito com ar de escolhos
inseto globoso de agosto árvore brotada
sobre uma boca em ruínas
retrato de sambixuga pomba estabelecida
no galho de uma estrela! riacho com osso de
fora (...) (BARROS, 1992, p. 209)
De certo modo, a reunião de 1990, com segunda edição
em 1992, marca um ponto culminante da poesia de Manoel de Barros e,
seguramente, de toda a poesia brasileira do século XX. Esse ponto,
provavelmente, só será atingido outra vez com a publicação num único volume de
todos os seus livros publicados até o presente, possibilidade ora embargada por
motivos editoriais. Não estaria a fazer falta, atualmente, para o leitor que teve
oportunidade de ler um ou outro livro do poeta, uma nova reunião que lhe desse
o panorama de quanto essa estranha poesia foi capaz de realizar?
Os livros posteriores do poeta, surgidos a partir de
1991, com Concerto a céu aberto para solos de ave, estendem e
complementam as experiências anunciadas até 1989, sem no entanto, a nosso ver,
ultrapassá-las. Fechou-se, enfim, o grande arco da poesia de Manoel de Barros?
Poderíamos dizer que, a partir de então, uma certa consciência das próprias
realizações se deixa insinuar aqui e ali entre as palavras do poeta,
acompanhada de um desejo de falar sobre aquilo que, nos livros anteriores, mais
se dizia como coisa do que se deixava dizer como objeto. Sua poesia continua
proporcionando aos leitores momentos altos de experiência, refulgindo
intensamente em certos lances, mas se deixando às vezes levar por aquele desejo
de manifestação que lhe dá um tom mais sério do que gostaríamos de lhe
descobrir:
O menino ia no mato
E a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do
menino
E ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que o
caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando meu corpo
E eu desviei depressa.
Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.
(BARROS, 2001, p. 29)
Essa poesia, que aprendeu a escarnecer do sério com
um senso de humor admirável, raramente igualado em nossa língua, e que aprendeu
a se retirar do mundo para melhor exprimi-lo, com uma potência que poderia ser
tudo menos ilegítima, parece ter entrado em seu ciclo lunar, no qual impera uma
certa necessidade de esclarecer a própria mensagem perante uma consciência
coletiva que, quanto mais a interroga, menos se revela capaz de compreendê-la.
Alguém já terá dito que certos escritores, quando atingem a maturidade ou o
reconhecimento público, tendem a se transformar – seja porque comprometidos com
um sucesso que demoraram a conquistar – em filósofos ou passam a parafrasear
suas próprias realizações. Não queremos com isso dizer que Manoel de Barros se
tenha tornado filosófico ou sentencioso. Entretanto, embora não se possa
duvidar da relevância de sua mensagem – e relevância cada vez maior, dadas as
circunstâncias políticas e culturais do mundo atual –, o leitor acostumado aos
seus melhores livros não deixará de se ressentir de uma certa ausência, como
se, uma vez estabelecida a própria imagem e o próprio conceito de poesia, o
poeta só pudesse continuar, a essa altura, escavando um terreno de onde já extraiu
jazidas consideráveis de seu tesouro. Se uma intuição central, entre os anos sessenta e setenta, deslocou brilhantemente o senso do contraste e da gratuidade dadaísta para uma dimensão que o fez incidir sobre um sentimento de gratuidade que parece dizer respeito a uma verdade profunda da natureza e do mundo, o fato de que o poeta se apresente hoje em dia como porta-voz dessa intuição nos fala mais do próprio poeta do que de sua poesia. E, se isso ajuda
a reforçar, perante o público, a sua imagem de poeta da natureza e das
“pequenas coisas do chão” (permitindo-lhe, inclusive, as recentes experiências
com os assim chamados livros infantis, ricamente ilustrados por artistas como
Ziraldo ou as bordadeiras da família de Antônia Zulma Diniz)[2],
a poesia talvez o ignore, bem como talvez nada saiba sobre mercado ou sucesso
editorial, por bem-vindos que sejam.
O último livro do poeta – lançado recentemente sob o
título de Memórias inventadas: a infância (Editora Planeta, 2003) –
confirma tais impressões. A consciência de um conceito a ser dito, ou de um
conteúdo a ser interpretado como centro de gravitação dessa mensagem que, em
seus momentos anteriores, apenas se manifestava discretamente, diluindo-se no
grande jogo do nonsense e do humor, comparece ali, a cada vez mais, com
uma força de insinuação que gera em nós algumas perguntas: “Dou respeito às
coisas desimportantes / e aos seres desimportantes. / Prezo mais insetos que
aviões. / Prezo a velocidade / das tartarugas mais que a dos mísseis” (BARROS,
2003, caderno IX). Numa época em que a consciência de pertencer ao mundo se
confunde, no âmbito da opinião coletiva, com uma consciência “ecológica”
culpada, não estariam esses versos a oferecer aos ouvidos exaustos uma espécie
de cantilena que eles só esperam para ouvir? O conforto é saudável, admitimos,
mas não corresponde ao fato de que, nos últimos anos, uma definida imagem de si
mesmo como poeta disto ou daquilo tende a se coagular na obra de Manoel de
Barros, convertendo-se, num sentido negativo, em “marca registrada” de sua
poesia? Neste ponto, seus últimos versos nos lembram aquelas entrevistas que
aparecem no final de Gramática expositiva do chão (poesia quase toda),
concedidas entre 1970-1989, em que o poeta, com muito humor, se dava permissão
para falar de si mesmo, mas sem deixar de imprimir a essa tarefa uma leveza de
toque que advinha da leveza de consciência de quem ainda não teria muitos
compromissos a saldar.
Estas últimas palavras não implicam, por enquanto,
um julgamento de valores, que seria apressado aventurar. Entretanto, diante dos
últimos livros do poeta, mal podemos fugir à impressão de que, multiplicando-se
com regularidade, compõem, aos fragmentos, um único livro que, fossem outras as
circunstâncias, poderia enfeixá-los num só conjunto, o qual os mostraria menos
como passos de uma trajetória linear do que como coroamento efetivo dessa
trajetória. Teriam as facilidades do mercado livreiro, com o fato de se ter
convertido num autor respeitado, com uma espécie de público cativo – cujos
membros já se dão ao luxo de presentear-se uns aos outros com as edições do
poeta (e não seria por acaso que as folhas soltas das Memórias inventadas
vêm enfeixadas dentro de uma caixa) –, influído no ânimo desse “fazedor de
inutensílios”? Sua linguagem, que parece ressuscitar meio tardiamente um certo
padrão de linguagem modernista – vazado em frases curtas e num coloquialismo
algo simplificado – poderia convencer o leitor de que se trata de um poeta
“acessível”, amigo de todos, o que em tempos de vulgarização da leitura parece
mais do que conveniente. Um poeta que já pode ser recomendado e levado às
escolas? Provavelmente, estamos longe da erupção dadaísta dos anos sessenta, e,
concedidas as licenças pelas quais se esperou durante anos, a voz pode falar
livremente, mas remetendo sempre ao seu passado como lugar de origem e reserva
de forças, da qual promana um forte brilho que, retrospectivamente, ainda agora
é capaz de iluminar o presente:
Nisso apareceu meu avô.
ele estava diferente e até jovial.
Contou-nos que tinha trocado o Ocaso dele por duas
andorinhas.
A gente ficou admirado daquela troca.
Mas não chegamos a ver as andorinhas.
Outro dia a gente destampamos a cabeça de Cipriano.
Lá dentro só tinha árvore árvore árvore
Nenhuma idéia sequer.
Falaram que ele tinha predominâncias vegetais do que
platônicas.
Isso era.
(BARROS, 2003, caderno X)
Leiamos a obra de Manoel de Barros, mas leiamo-la
toda, fora das ilusões de que, ao ouvi-lo insistir no fácil, no arbitrário
e no gratuito da poesia, esse fácil, esse arbitrário e
esse gratuito venham a ser, exatamente, aquilo que certas conveniências
do mercado ou das opiniões vigentes nos querem impingir como tais.
BIBLIOGRAFIA
BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão
(poesia quase toda). 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
______. Tratado geral das grandezas do ínfimo. Rio
de Janeiro: Record, 2001.
______. Concerto a céu aberto para solos de ave. Rio
de janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
______. O fazedor de amanhecer. Rio de
Janeiro: Salamandra, 2001.
______. Exercícios de ser criança. Rio de
Janeiro: Salamandra, 1999.
______. Memórias inventadas: a infância. São
Paulo: Planeta, 2003.
BARTHES, Roland. O grau zero da escrita. Lisboa:
Edições 70, 1989.
BRETON, André. Manifesto do surrealismo (1924). In:
TELES, Gilberto Mendonça (org.). Vanguarda
européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas,
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Rio de Janeiro: Record, 1987.
* Doutorando em Letras pela UNESP-Assis e professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), em Guarapuava. E-mail: rsuttana@ig.com.br. Homepage: http://br.geocities.com/rsuttana.
[1] Uma reflexão mais detalhada sobre as categorias da promiscuidade, da fecundidade e outras, bem como do sentido da noção de frase nessa poesia pode ser lida em minha dissertação de mestrado, intitulada Uma poética do deslimite: o poema como imagem na poesia de Manoel de Barros e defendida na PUC-Minas em agosto de 1995.
[2] Trata-se dos livros O fazedor de amanhecer (Rio de Janeiro: Salamandra, 2001), ilustrado por Ziraldo, e Exercícios de ser criança (Rio de Janeiro: Salamandra, 1999), ilustrados com bordados de Antônia Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont sobre desenhos de Demóstenes, respectivamente.